01/07/2016 11:12:05
Caê Mancini - Topa o som que é música
Das canções de trabalho no campo e dos spirituals nas casas de fazenda surgiu o blues
Crédito: Fotos/ ArquivoNo início do século 20, o pioneiro do blues Charley Patton
Caê Mancini é compositor, instrumentista e produtor

A música é uma das mais antigas manifestações de arte da humanidade, com inúmeras propostas percussivas, harmônicas e diferentes organizações melódicas que são veiculadas à cultura de determinados povos. Em muitas tribos, ou sociedades antigas, era comum a entoação dos chamados cantos de trabalho (work songs) na realização dos afazeres do dia-a-dia, com a finalidade de manter o ritmo das atividades, ou até mesmo torná-las mais agradáveis e menos tediosas. Com a natural expansão da população pelo globo, a música começou a dialogar com um "mundo moderno", principalmente, através do sincretismo. Talvez uma das histórias que melhor represente esse conceito de globalização e modernização da música, seja o triste e vergonhoso episódio da escravidão negra nos Estados Unidos, que culminou no surgimento do pai de muitos estilos musicais que conhecemos hoje em dia, o blues.

Em meados do séc. 17, os primeiros navios negreiros desembarcaram nos Estados Unidos com o intuito de substituir a servidão branca nos latifúndios agroexportadores por um trabalho compulsório usando a mão de obra africana. A maioria dos africanos foram designados para o sul do país, mais precisamente para a região do Delta do rio Mississipi, na cidade de Memphis, Estado do Tennessee, e em Vicksburg, no Estado do Mississipi – toda essa área de terras ricas para o plantio de algodão, milho e tabaco.

Muitos africanos trouxeram consigo a tradição dos cantos de trabalho e entoavam na hora do labor lamentos melancólicos ritmados pela ação das ferramentas de trabalho. Com o passar do tempo as work songs foram misturando as línguas africanas, principalmente o banto e o iorubá, com a língua inglesa, sendo substituídas por completo posteriormente. 

O canto era o principal modo de manifestação cultural dos africanos, uma vez que fora criado o black code, lei que os proibia de utilizar tambores, pois os fazendeiros tinham receio que os instrumentos fossem utilizados como códigos para incitar uma rebelião. Além disso, as práticas religiosas africanas foram demonizadas e também proibidas, pois a maioria das famílias dos latifundiários era de orientação cristã protestante. Paralelamente, muitos africanos foram forçadamente catequizados e praticavam a rotina religiosa branca que incluía cantos de adoração. 

Africanos trouxeram os 'cantos de trabalho', depois criaram os 'spirituals' como cantos de adoração, por fim, o blues, o rock, o jazz...

No que toca o aspecto teórico, os africanos realizaram uma adaptação na harmonia da escala europeia diatônica tradicional, diminuindo em meio tom as notas do terceiro e sétimo grau com relação à tônica, o que caracteriza as chamadas blue notes. Assim, os africanos passaram a entoar muitas passagens bíblicas a sua própria maneira, o que originou o spiritual. Algumas vertentes afirmam que o blues surgiu dessa fusão entre os work songs e o spiritual.

Naquela época, alguns afro-americanos conviviam mais intimamente com os fazendeiros e muitos deles receberam educação em música erudita, principalmente no piano e violino, com a finalidade de entreter os donos das fazendas. No entanto os músicos também passaram a utilizar o artifício da blue note, inserindo-o na educação erudita.

No século 19, o Estados Unidos eram divididos em ideologias distintas que separavam o país em Norte (União) – nação capitalista com base econômica industrial e trabalho imigrante assalariado – e Sul (Confederação) – agroexportação com exploração de mão de obra escrava. Em 1860, Abraham Lincoln, candidato que representava os ideais dos Estados do Norte e era contra a escravidão, foi eleito presidente dos Estados Unidos, o que culminou no início da Guerra de Secessão (Guerra Civil Americana), que se estenderia por cinco anos.

No dia 1o de janeiro de 1863 foi proclamada a lei da emancipação que aboliu a escravidão em todo território confederado e aprovou a adesão dos afro-americanos no exército da União. Estima-se que cerca de 180 mil afro-americanos tenham lutado pela União, sendo dois terços desse total escravos sulistas que fugiram para o Norte. Nesse período, muitos ex-escravos tiveram contato com instrumentos das bandas marciais, principalmente instrumentos de sopro, e tentavam reproduzir um som semelhante ao efeito das vozes dos cantos spirituals nesses instrumentos.

As juke joint realizavam concertos num misto de bar e casa de jogos

A guerra se encerrou em 1865, com vitória da União, o que influenciou uma ocupação do Sul pelos nortistas, e contribuiu com o estabelecimento da cultura abolicionista em grande parte do território nacional. Entretanto, assim como no Brasil, a abolição da escravidão não trouxe inserção social, principalmente devido às leis e ideais de segregação social – tendo como principal figura a Ku Klux Klan –, o que de certa forma fez se estabelecer uma espécie de neo-escravidão, pois o trabalhador ainda era dependente dos proprietários de terra. Com o passar do tempo, os afro-americanos ex-escravos passaram a trabalhar nas grandes cidades do Sul, em fábricas de algodão, ou ferrovias, barragens e, posteriormente – ao fim da 1a Guerra Mundial – muitos migraram para o Norte. Com isso, o blues começou a ganhar um caráter mais urbano abordando temas como mulher, sexo, alcoolismo, desemprego.

Em meio a um novo cenário social subproletariado pobre e marginalizado, surgiram as juke joint, casebres de madeira localizados principalmente a beira das estradas que funcionavam como estabelecimentos que abrigavam um misto de bar, jogos e concertos de música onde surgiram os primeiros bluesmen. Talvez um dos primeiros músicos a receber mais destaque tenha sido Charley Patton, no início do século 20. Posteriormente, com o advento da tecnologia, desenvolvimento da indústria fonográfica e crescente interesse do mercado no blues, surgiram nomes como Robert Johnson, Sonny Boy Williamson, Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker, Chuck Berry (rock moderno).
Muddy Waters revolucionou o blues ao eletrificar todos os instrumentos da banda e em uma turnê para a Inglaterra no inicio dos anos 1950 e nos anos 1960 influenciou diretamente os músicos do país, como Beatles, Led Zeppelin, Cream, além de músicos americanos como Dylan e Hendrix.

Não é exagero afirmar que o blues é o pai de muitos estilos tais como: jazz, soul, R&B, rock, folk, country, bluegrass, western swing, rockabilly, ska, rocksteady, reggae. Muito mais importante do que a história e legado do blues como música é a sua representatividade como manifestação, resistência e afirmação cultural para um povo duramente oprimido que mostrou que a música oriunda da alma pode quebrar qualquer paradigma, por mais estúpido e enraizado que seja.

Sugestão de audições:

Negro Prison Blues and Songs

Robert Johnson - The Complete recordings

Roll Jordan Roll

Muddy Waters - Hoochie coochie Man (1960)

Sonny Boy Williamson - Nine below Zero

Willie Dixon - The Big Three Trio (full album, 1947-1952)