27/12/2015 08:18:31
Karol Mendes - Desconstruindo Paradigmas
O caso Fabíola e o tsunami machista revelado nas redes sociais
Crédito: Blasting NewsCadu e Fabíola em publicação na internet que diz que o marido 'perdoou' Fabíola

Depois de vários porn revenge, do “Já acabou Jéssica!”, bem como de inúmeros casos de violência contra mulher, na reta final de 2015 me deparo com o “Foi fazer a unha né Fabíola!”

Em resumo, o caso que ganhou proporções astronômicas trata-se do flagrante do marido traído ao ver sua esposa (Fabíola) e o seu amigo (Leo) num motel. Até aí, tudo bem, pois poderia ser mais um caso de traição que interessaria apenas às partes resolvê-lo.

Entretanto, não foi bem assim. Todo fato me pareceu bastante organizado e concateno para que, no final, ocorresse da forma que está posta. A invasão do motel, a filmagem, a narração dos fatos não me deixaram tão surpresa, pois o mundo anda meio bizarro. O que me assusta é ver um vídeo, de um homem furioso, que agrediu verbalmente e fisicamente a sua esposa, que depredou o patrimônio alheio, ser veiculado pela mídia de tal forma que, chega a naturalizar a conduta violenta do indivíduo. É ver pessoas respaldarem tal comportamento na moral e nos bons costumes. Mais bizarro ainda é ver o povo incitar a violência contra a esposa e ainda assim fazer piada com o mesmo fato.

Então, vamos por partes.

Inicialmente, deve-se observar a repercussão do caso na esfera individual de cada um dos envolvidos. Fabíola traiu, Leo traiu e o marido foi traído. Porém, a repercussão maciça do fato está recaindo apenas no primeiro persoangem, pois tendo em vista os parâmetros grotescos da sociedade, mulher que trai é única e exclusivamente PUTA. É vadia, é vagabunda.

Mas, e o homem que trai? Para ele não há uma denominação única. Em suma, ele é denominado como esperto, desenrolado, comedor, dentre outros adjetivos. No máximo, ele poderá ser considerado um cafajeste, mas NUNCA lhe será imputado – na mesma intensidade – a culpa e a revolta social, como no caso de Fabíola.

Isto por que vivemos numa sociedade em que, mesmo com princípios constitucionais que primam pela igualdade, os gêneros são tratados de formas diferentes em conseqüência das concepções machistas de outrora, as quais ainda são propagadas como forma regulamentadora de condutas sociais.

Perceber que em pleno 2015, mulheres recebem tratamento equivalente ao dado a criminosos, em virtude de uma conduta sexual, considerada pela população como desviante, enquanto para um homem, a mesma é considerada normal, deixa qualquer pessoa que tenha o mínimo de bom senso e consciência de cabelo em pé.

E para piorar a situação, dentro do mesmo fato observa-se a conduta violenta do marido. Em nenhum momento ele chega a agredir o “amigo”. Suas agressões são voltadas mais uma vez para Fabíola. Para quem não viu o vídeo, em um determinado momento o marido tira a mulher do carro pelo cabelo; em outros, quando o mesmo se aproxima da esposa, o cara que está gravando sempre abaixa a câmera. Por que será?

Além de toda a questão da invasão do motel, da violência e da destruição patrimonial, o traído – junto com o seu cameraman – cogitam chamar a polícia, porque o cidadão acha que a sua conduta está correta. Porém, ele esquece que não estamos na década de 1950, onde o adultério era um tipo penal específico, passível de processo e condenação. Traição não é crime! Fabíola não é uma criminosa, mas está sendo julgada e exposta como uma.

Ver que a indignação em massa não foi gerada nem pela violência nem pelas ameaças, mas sim pela traição por parte da MULHER me dá medo do que as pessoas podem fazer em nome da tão intocável moral.

Vale a pena lembrar que a moral é algo bastante subjetivo e abstrato. E, justamente por isso que as suas acepções podem variar de acordo com o entendimento de cada pessoa.

A meu ver, sendo bem simplista na análise da realidade na qual estamos inseridos, considero que a moral possui a função de limitar as vontades e o agir humano – para aqueles que acreditam nela. Além disso, tudo que não se coadune com o esperado pela moralidade social será passível de severo juízo de valor. A defesa da moral é só uma desculpa para as pessoas destilarem o seu ódio. E não devemos esquecer a quantidade de desgraça que já foi feita em defesa desta e bem como dos bons costumes.

Por fim, faço uma colocação um tanto arriscada: “E se Fabíola fosse um homem?” O caso teria uma grande repercussão, não posso negar. Mas a “fama” se daria por que provavelmente veríamos duas mulheres se digladiando; veríamos essas mulheres serem julgadas: a amante, seria a PUTA, biscate, destruidora de família, que dá em cima do marido alheio. A esposa seria a louca por quebrar o carro, armar barraco, dar vexame, e de ser descuidada e incompetente por não saber segurar o seu homem. E Fabíola, se ela fosse um Boy não seria PUTA. Ela seria o espertão, que sabe aproveitar as oportunidades, ou um cara que pisou na bola e merece o perdão da esposa e da sociedade, por que, poxa, os instintos de um homem são indomáveis (como costuma ser dito por ai).

Infelizmente, talvez esse seja só mais um, dentre outros casos de super exposição que denigrem a imagem de uma mulher. Que destroem sonhos, carreiras, oportunidades e até mesmo vidas. E é triste saber, que provavelmente não será o ultimo.

P.S: Sobre a conduta de Fabíola, não estou dizendo que ela está certa, porém; quem sou eu para julgá-la. E um aviso para a galera que gosta de apontar o dedo para os outros e despejar tudo o que é tipo de julgamento e ofensas, lembrem-se: Hoje, vocês são os carrascos, mas amanhã, vocês poderão ser as vítimas. Então, pensem duas vezes antes fazer juízo maldoso e desnecessário a cerca da vida alheia.