10/06/2018 13:57:48
Cultura
'Festival Varilux de Cinema Francês' exibe o clássico político 'Z'
Crédito: Fotos/ DivulgaçãoDirigido pelo grego Costa-Gavras, 'Z' foi proibido no Brasil pela ditadura militar
Jorge Barboza

A morte, em circunstâncias suspeitas, de um político liberal (interpretado pelo legendário, para não dizer icônico – palavra da moda – ator e cantor Yves Montand) é o estopim do clássico de 1969 “Z”, produção franco-argelina dirigida pelo grego Costa-Gavras. Cartaz deste domingo (10) do Festival Varilux de Cinema, será exibido em única sessão, às 18h30, somente no cine Arte Pajuçara à avenida Doutor Antônio Gouveira, 1.113, orla da Pajuçara.

“No dia 22 de maio de 1963, o deputado grego Grégorios Lambrakis, um incômodo eleito, que milita contra a instalação de foguetes americanos, é mortalmente atropelado quando sai de um encontro pacifista em Salônica. A polícia fala de acidente, mas um juiz está convencido de que as autoridades encobriram um movimento de extrema-direita. Altos funcionários serão indiciados e depois reintegrados em 1967, quando os militares tomam o poder”, destaca a comunicação da mostra no site da programação .

'Z': o assassinato de um deputado forjado pelos opositores com  a ajuda da polícia e de militares

Prêmio de “melhor filme estrangeiro” – quando essa categoria foi criada no Oscar de 1970 –, a obra do contestador Costa-Gavras, diretor de outros filmaços políticos realizados na Europa e Estados Unidos (entre eles “Estado de Sítio” e “Desaparecido”, de 1972 e 1982, ambos falando de ditaduras na América Latina – e da interferência norte-americana nos eventos políticos desses países, somente foi exibido no Brasil (à época sob o julgo do golpe de 1964 que levou os generais ao poder) em 1980, justamente o período de “abertura” da ditadura militar – quando, também, entraram em cartaz outros classicões da lista negra dos milicos, “O Último Tango em Paris”, do italiano Bernardo Bertolucci; “Zabriskie Point”, de outro mestre italiano, Michelangelo Antonioni, e “A Laranja Mecânica”, do genial Stanley Kubrick.

“Z” tem tudo a ver com o que nos aconteceu ontem e que volta a acontecer hoje, nesse preâmbulo de fascismo que estamos vivendo sob ameaças as mais assustadora – já vivendo um governo de mentiras, corrupção e cinismo, envolvendo a mídia corporativa e os políticos de carreira criminosos e descaradamente contra inclusão social e contra os trabalhadores. Por último, mas não menos importante, o low-fare (ou seja, o conluio) da Justiça com as oligarquias econômicas e políticas configura, de qualquer modo, uma ditadura moderna. Tudo o que acontece na história real de 'Z' parece se repetir no Brasil, mais uma vez. E que deus nos acuda nas próximas eleições, se é que elas ocorrerão – e sabe-se lá de que forma ocorrerão.

Jean-Louis Trintignant: prêmio de melhor ator no Festival de Cannes 1969

“É um thriller político avassalador. Emocionante e a tirar o folego, com roteiro do escritor espanhol Jorge Semprún, tendo no elenco Yves Montand, Jean-Louis Trintignant, Irene Papas etc. A exibição de ‘Z’ nas telas de cinema do Brasil numa época em que pessoas publicamente se dizem nostálgicos da anomia e arbitrariedade militar não é um fato anódino”, diz Adler Farias Costa, coordenador cultural da escola de língua Aliança Francesa, que é responsável pela realização da mostra “Varilux” em diversas capitais, incluindo Maceió.

“O filme tem quase 50 anos, mas é, infelizmente, sempre atual. Ele incita à vigilância e merece seu título inicial de 'Ele está vivo', em grego antigo, como os oponentes escreviam. O roteiro escrito por Costa-Gavras e Jorge Semprún vai bem além do caso único da Grécia. O que 'Z' mostra é como uma democracia abriga, nela mesma, a própria causa de sua queda. O que 'Z' revela é que, sem se dar conta, pode-se aprisionar uma democracia com pequenos toques – a aliança artificial entre militares, políticos e grupos extremistas religiosos, a mentira construída como método de governo e a complacência passiva de um povo que prefere fechar os olhos”, observa o site do Festival Varilux.