11/05/2018 11:24:49
Cultura
Paulo José: o melhor ator do cinema brasileiro em todos os tempos
Crédito: Fotos/ DivulgaçãoPaulo José em 'Macunaíma' (1969), filme do diretor carioca Joaquim Pedro de Andrade
Jorge Barboza

– Paulo José em “Todos os Paulos do Mundo”. Os créditos iniciais do filme de Rodrigo de Oliveira codirigido por Gustavo Ribeiro – estreando nesta sexta-feira (11) no Centro Cultural Arte Pajuçara –– indicam tratar-se, para além do documentário, de uma produção estrelada por Paulo José, 81 anos, provavelmente o maior ator do cinema brasileiro de todos os tempos. Caso o leitor seja um jovem amante de filmes, e não se lembre sequer de Paulo interpretando em 2013, na novela “Em Família”, um senhor septuagenário enfrentando o Mal de Parkinson, prepare-se para uma incrível viagem pelo grandiloquente descolado cinema tupiniquim dos anos 1960 e 1970.

Por si só, esse tesouro que o filme lança sobre o espectador logo na abertura (cenas de “Todas as Mulheres do Mundo”, “Edu, Coração de Ouro”, “O Padre e a Moça”, “Macunaíma”, num curioso jogo de montagem com o ator, de costas, caminhando na rua e em ambientes interiores, e depois, de frente, continuando a caminhar e então correndo), vale a ida ao cinema. O cinéfilo contemporâneo que ainda não mergulhou nessa riqueza nacional vai ficar deslumbrado diante de um cinema tão vivo e criativo. De um ou outro filme na atualidade – e já botando nessa lista restritíssima o vitorioso “Todos os Paulos do Mundo” –, pode-se dizer que é obra viva, importante e impactante como esses clássicos cariocas e paulistas ali entrecortados no documentário de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. O público quarentão e cinquentão, que conhece boa parte das pérolas assinadas por Joaquim Pedro de Andrade, Domingos de Oliveira, Luiz Carlos Person, vai se divertir tentando lembrar cada um dos filmes recortados e entrelaçados que afinal contam uma nova história: a do homem nascido em Lavras do Sul (RS) e do ator que começou no teatro em Porto Alegre, consagrando-se como artista de cinema e TV entre os estúdios das capitais paulista e fluminense.

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'O Homem Nu', filme de Roberto Santos de 1968

“Primeiro de tudo”, diz o diretor Rodrigo de Oliveira em entrevista ao Alagoas Boreal, “o ‘Todos os Paulos do Mundo’ já nasce desde o começo com uma questão importante que era o Paulo José estar já há mais de 20 anos convivendo com o Parkinson e a voz dele está muito tímida. A gente sabia desde o começo que não podia entrevista-lo, por exemplo. Então um primeiro passo foi: ‘Por que não acreditar que o trabalho dele fala, por conta própria?’, por que não acreditar que esses filmes todos e o ator que ele foi em cada uma dessas épocas, e o ator que ele é hoje, por si só não nos emprestam essa voz?”

'O Padre e a Moça' (1965), filme de Joaquim Pedro de Andrade: estreia no cinema
Com Leila Diniz (de costas): parceiros nos filmes, namorados de mentirinha

Sim. “Todos os Paulos do Mundo”, em pouco mais de uma hora e meia, refaz a vida de Paulo José, em magnetizante (para não dizer eletrizante) montagem desde o primeiro filme lá em 1965, “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade, narrando em off causos da infância do futuro “galã e ator pícaro”. Enquanto rolam cenas de “Todas as Mulheres do Mundo” (o ator de calcinha e sutiã brincando com Leila Diniz), Paulo afirma que nunca construiu personagens e que sempre interpretou a si mesmo. Os fatos da vida do artista (no teatro, no cinema, na TV) são contados, sedutoramente, pelo protagonista do filme em entrevistas colhidas nos arquivos de TV e rádio, e pelos "parceiros de cena" (Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Helena Ignez, Selton Mello) e familiares (a atriz Bel Kutner) interpretando depoimentos do ator para revistas e jornais.

“É um documentário de montagem onde a gente coloca para conversar os filmes todos que o Paulo vez sem exatamente se preocupar com uma ordem de cronologia ou mesmo com a identificação dos filmes que está se vendo porque mais importante do que saber quais são os filmes em si é saber, é ouvir o que os filmes estão dizendo. O espectador que entrar no filme e decidir embarcar nessa confusão de palavras, de personagens que conversam entre si de um filme para outro vai entrar numa viagem muito bacana.”

Essa extensa pesquisa empreendida pelos diretores resultou num farto material com as entrevistas de Paulo José. “A gente queria costurar essa narrativa dos filmes, dos materiais de arquivo da televisão, do teatro, com uma narração que fosse do próprio Paulo”, explica Rodrigo de Oliveira.

Paulo José, Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira no lançamento de 'Todos os Paulos do Mundo' no ano passado

“Não queríamos entrevista com ninguém, queríamos mesmo ouvi-lo. No que era possível, no que tínhamos de entrevistas que ele deu para televisão e para o rádio, a gente coloca na voz dele mesmo. O que a gente só tinha de material impresso, convocamos esses parceiros de cena, e a família, as filhas, o filho e a mulher atual do Paulo – a gente os convoca para emprestar suas vozes às palavras do Paulo. Também sem identificá-los. Eu gosto do que você falou como isso é uma sacada e acho importante mesmo, às vezes você entra numa cena sem saber exatamente de quem é aquela voz, mas você já confia que as palavras vêm de Paulo José, e aos poucos o filme vai revelando: aqui tem uma Fernanda Montenegro, acolá tem um Matheus Nachtergaele, um Selton Mello, uma Joana Fomm. E quando você está vendo cenas do [Teatro de] Arena está lá o Flávio Migliaccio, o Milton Gonçalves, falando as palavras do Paulo, e essa mistura para a gente era só mais uma dimensão do que significa trazer à cena todos os Paulos do mundo, todos os Paulos todos, Paulos vários para os vários Paulos que o próprio Paulo José foi, mas, também, para tudo que ele espalhou, para os seus parceiros, para os seus amigos, para a sua família. Esse homem que se divide em tantos e tantas ao longo desse tempo todo.”

Paulo José é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter no filme de Joaquim Pedro de Andrade

Outro trunfo de "Todos os Paulos do Mundo" está mesmo nessa pujança do cinema nacional dos anos 1960 e 1970 que ele reflete. Filmes  que deixaram saudade – seja por um conceito autoral neles impresso e que é muito raro hoje em dia, seja pela presença efusiva (e autoral também) de atores como Paulo José e Leila Diniz – que todos pensavam que eram namorados – ou atores como o casal de verdade Paulo e Dina Sfat. Ou como a estupenda Marília Pera. No documentário de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro, o próprio Paulo explica essa marca pessoal dos trabalhos ("jogos") que realizou.

“Uma coisa fundamental de entender o Paulo José”, intervém Oliveira, “é que a história de Paulo José e a história do cinema brasileiro estão muito coladas. Esse é talvez o grande ator brasileiro a acompanhar a trajetória do cinema brasileiro desde os anos 1960 até aqui. Ele esteve presente no centro de filmes emblemáticos para o cinema brasileiro em todas as décadas em que atuou, de 1960 a 2010. Então esse filme é tanto um tributo e uma homenagem ao ator Paulo José quanto é aos seus parceiros de cena, aos diretores com quem ele trabalhou, aos fotógrafos. Isso que você fala, desse fulgor do cinema brasileiro dos anos 1960 e 1970, que o filme carrega, é muito por conta disso, porque só um ator como Paulo, que atravessou essa história toda, é capaz de nos oferecer um material tão vasto. O nosso trabalho, meu e do Gustavo, meu codiretor, foi bastante prazeroso porque nós estávamos lidando com alguns dos maiores planos da história do cinema brasileiro. E, para além da história do cinema, a história dos atores. E aí o filme é tanto sobre o Paulo quanto é sobre Marília Pera, quanto é sobre Leila Diniz e sobre Dina Sfat. O Paulo sempre foi um ator muito generoso, e muito consciente, e ele fala no filme do seu papel como material de ação. Às vezes é mais importante o ator estar de costas – e toda vez que Paulo José no nosso filme aparece de costas, quem está de frente são algumas das maiores atrizes da história do nosso cinema. Nesse sentido, o filme pausa e toma tempo para prestar homenagens muito devidas a Marília, a Leila Diniz e a Dina Sfat.”

TODOS OS PAULOS DO MUNDO (Brasil, 2017) – Direção de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. Estreia nesta sexta-feira (11), às 18h45. Sessões também nesse sábado (12) e na terça-feira (15).
CENTRO CULTURAL ARTE PAJUÇARA – Avenida Doutor Antônio Gouveia, 1.113, orla da Pajuçara, Maceió. Tel. (82) 3316 6000.