10/05/2018 11:35:23
Cultura
'Em Busca da Tronco' discute a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), marcando a volta de Joaquim Alves ao cinema
Crédito: Fotos/ DivulgaçãoJoaquim Alves no Coliseu, em Roma; diretor filme em cinco países europeus
Jorge Barboza

O cineasta Joaquim Alves faz o lançamento, nesta quinta-feira (10), do filme “Em Busca da Tronco”, trazendo à tela o drama da Esclerose Lateral Amiotrófica (a ELA) na saga de um padre (interpretado pelo próprio Alves) que se descobre vítima da doença. O tema recorrente de Joaquim Alves – a ditadura militar –, aparece como pano de fundo. O longa metragem será exibido em Maceió, às 20h, no Centro Cultural Arte Pajuçara, à avenida Doutor Antônio Gouveia, 1.113, orla da Pajuçara.

Joaquim Alves, 68 anos, diz que dirigiu “cerca de 20 filmes”. Boa parte deles são películas rodadas no antigo formato super-8, cuja produção em Alagoas nos meados da década de 1970, tendo o antológico festival anual de cinema na cidade de Penedo como meta final, era de fato exuberante, lançando anualmente (no Festival de Penedo) uma grande quantidade de filmes. Daí a dificuldade do diretor em precisar o número de longas e curtas metragens que realizou. Produtor, escritor, roteirista, fotógrafo, dentre os filmes míticos assinados por Alves, está “Guenzo”, inspirado no conto "A Prisão de J. Carmo Gomes”, de Graciliano Ramos, e protagonizado por Ronaldo de Andrade.

Jorge Barboza
O cineasta lajense radicado em Maceió desde 1969 filmou com o aparelho de celular
Erinete Barbosa é uma das beatas em torno do padre encarnado por Joaquim Alves

O lajense Joaquim Alves mudou-se para a capital depois que uma tromba d’água inundou São José da Laje em 1969. “Com a enchente, minha casa caiu sobre mim e minha família. Logo em seguida, já estava em Maceió, trabalhando no Produban [banco oficial do Estado, fechado há 20 anos], ao lado de Hércules Mendes. Lá, no intervalo, escrevi dois livros da geração mimeografo: ‘Homens Alagoas’ e um de poesia, em parceria com Ronaldo de Andrade, meu conterrâneo. Fazia, também, roteiros para vídeos, e ainda como funcionário do Produban, fiz os filmes "Crise", "Mordaça" – estes dois premiados no Festival de Penedo – e "O Homem que jantou o Filho", que ganhou os troféus de melhor filme e melhor roteiro, no Festival Nacional de Cinema de Curitiba. Depois vieram mais outros filmes e premiações, exibições em circuito universitário do Rio, São Paulo etc., e no Nordeste também”, declarava o cineasta em entrevista ao site Alagoas Boreal, a propósito da estreia do balé “O Acendedor de Ilusões”, que a bailarina e coreógrafa Maria Emília Clark realizou em 2016, em homenagem a esse guerreiro das artes cinematográficas.

Jornalista, crítico, psicólogo e professor aposentado do curso de Formação de Ator da Ufal, o diretor conversou novamente com a reportagem do site sobre este bem vindo novo filme e sobre a dificuldade de continuar trabalhando com cinema em Alagoas – a despeito dos editais que estão ajudando formar uma nova geração de diretores de cinema.

Acompanhe trechos da entrevista.

Sobre o roteiro de “Em Busca da Tronco”:

“O protagonista é um padre filho de um casal militante da esquerda na década de 1960. Eles foram perseguidos e mortos. Tinham um casal de filhos – o mais jovem foi adotado pela Igreja e acabou virando padre, a menina tinha uns 12 anos e foi adotada por um grupo europeu, através da Anistia Internacional, que a levou para morar na Europa. De repente, já na idade adulta, o padre descobre que tem a doença ELA. Então a médica, que é a [musicista] Selma Britto, diz que a única alternativa do padre, para não morrer, é conseguir a célula tronco compatível com uma pessoa muito próxima a ele, e a pessoa mais próxima é essa irmã da Europa com quem ele não tem contato. Sabe da existência, mas não sabe onde ela está – nunca entraram em contato. Ela foi criada meio paranoica, com medo da ditadura, essa loucura toda. Então, com a ajuda da Anistia Internacional aqui em Alagoas, que é representada pelo ator Pedro Onofre, e com as Anistia Nacional e Internacional consegue ir localizando os eixos que essa irmã frequenta, os países que ela vai, essa questão toda. Ele vai para a Europa em busca dessa Irmã, só que mesmo com a orientação da Anistia e das informações que ele recebe, não consegue localizá-la.”

 
 Joaquim Alves filmando a atriz e poeta Anilda Leão
 
Diretor começou no formato super8 mm

Para realizar o filme, Joaquim Alves viajou por cinco países europeus:

“Quando o Padre está em Veneza, passeando de gôndola, ele liga para a médica: ‘Como é? Não consegui, eu vou morrer mesmo? Qual é a solução?’ E ela: ‘Não, acalme-se, descobri uma coisa muito importante: o diagnóstico foi errado, você não está com ELA, suspenda toda medicação e venha embora’. Aí o padre xinga a médica, chama-a de canastrona... Há esse diálogo entre o padre em Veneza e a médica aqui em Maceió, com um um encaixe bom nisso. Ele vem embora para Maceió e aqui reencontra as pessoas e retoma a vida.”

O orçamento da obra, toda filmada com um celular Motorola, o diretor não revela – “é top secret”, diz:

“Hoje em dia para você viajar paga em dez ou 12 meses. Não fiquei em grandes hotéis, mas em pousadas e hotéis pequenos.”

O imbróglio dos patrocínios:

“Tentei vários editais do Minc, da Anvisa e não consegui. Aqui também não consegui. Entreguei projetos e era sempre a mesma conversa: ‘Não tem verba’. De repente surgiram editais que outras pessoas geralmente ganham. E eu não ia ficar lamentando, “ai de mim, coitadinho”. Então fiz o filme com esse celular aqui. Eu já participei de uns seis editais estaduais, até de governos anteriores. No ano em que a Anilda [Anilda Leão, Maceió, 1923-2012] morreu, eu fiz um projeto de recuperar os filmes que ela fez comigo – mais de oito –, e foi vetado. O Marcos Sampaio deu okay, o outro jurado deu, mas um terceiro negou. Falei com o secretário na época, hoje em dia essa pessoa não está mais no governo estadual. Mas eu não quero saber, que ele seja feliz. Foi uma resiliência. Eu tinha duas opções, ou ficava repetindo, ‘coitadinho do Joaquim, vai continuar sem fazer cinema’, ou ia lá e fazia. Eu fiz, para mim foi muito gratificante.”

Sobre a opção de fazer o filme com celular:

“Para gravar no exterior com a câmera eu teria de pedir licenças das prefeituras. Com o celular, você grava e ninguém incomoda você, é confundido com um turista. No Brasil, você chega com a câmera, filma e vai embora, a não ser que seja uma superprodução. Para manter a unidade eu gravei lá e aqui tudo com o meu smartphone Motorola. A única coisa que eu paguei foi a edição. Fiz uma pré-edição e contratei um editor profissional pra fazer a edição final. Ele deixou com uma hora e 20. Inicialmente eram três horas de imagem. Cortei mais de meia hora, ficaram duas horas e pouco. Ele lapidou mais. Eu dei liberdade a ele. Para o diretor é difícil cortar.”

 
Além de assinar a trilha sonora junto com Fred Hollanda, a pianista Selma Britto interpreta uma médica no filme

Elenco de estrelas da “melhor idade”:

“O elenco é da melhor idade. São pessoas acima dos 65 anos. Tem a Selma Britto, que é ótima atriz e minha amiga do peito; tem a Salete Carvalho, mãe do [músico, responsável pela trilha sonora junto com Selma] Fred Hollanda, e a tia dele Tânia Veras; a Sônia Teixeira...”

Sobre a carreira:

“Comecei com super8 e ganhei diversos prêmios em Penedo. Em 1974, fiz “Severino o Homem que jantou o Filho’, que ganhou festival nacional em Curitiba. O filme faz um comparativo entre um grande latifundiário e um casal de plantadores de cana mortos de fome. A bonança, a casa do homem rico e o outro lá sem ter o que comer. Meio dia come farinha seca e quando chega em casa à noite só tem o filho chorando e nada para comer. Então o pai vai até o açouguezinho, dá um banho no filho – a mãe já está com a bacia, corta o pescoço do menino e prepara um bom guisado. Eles comem que se fartam – matam a fome e livram o filho da mesma miséria que eles vivem. Ainda dão os ossos ao cachorrinho também morto de fome. Agora interessante que esse casal era cortador de cana, a mulher era realmente tuberculosa de fome. Depois de 15 dias de atuar no filme ela morreu, de tuberculose, de inanição. Tem uma ótica de esquerda: na época fui chamado à Polícia Federal: ‘O que é isso, filme de comunista? Está fazendo filme de comunista?’. E eu: ‘Não, eu não sou comunista, apenas fantasio a realidade, é um delírio’.”