30/01/2018 13:06:01
Diversão e Arte
Movimento Antropofágico Miscigenado retorna com intensidade ao saguão do Teatro Deodoro
Crédito: Fotos/ DivulgaçãoRefazer, comer e digerir a cultura entre os artistas, é o foco do movimento 'Antropofágico'
Sebage

O movimento Antropofágico Miscigenado retorna hoje ao jardim do Teatro Deodoro. Como no ano passado, continuará sendo realizado em dia de terça-feira, começando às 17h30, uma vez a cada mês. Este é o formato ideal, pois a produção desse encontro de músicos e poetas no foyer do teatro requer uma série de atividades que vai desde convidar o músico para o pocket show até a campanha que fazemos junto ao público, na imprensa e nas redes sociais.

Eu e o guitarrista, compositor e cantor Edi Ribeiro iniciamos em janeiro do ano passado essa maratona de música alagoana, com pockets shows, declamações e microfone livre para as canjas dos músicos compositores. Para esta primeira edição de 2018, o grupo de artistas que dão continuidade ao movimento (eu mais os músicos Pc Lamar, Alexander Moreira e Mário Alencar, além do pesquisador e blogueiro Dimas Marques) convocou os colegas que participaram dos “antropofágicos” de 2017 – inicialmente uma vez por semana até finalmente se tornarem mensais. Nesta terça-feira (30), por ser uma edição especial com maior o número de artistas convidados, as apresentações musicais terão apenas 20 minutos.

No roteiro, Mario The Alencar, guitarrista e compositor, interpretando canções em português (ele que é líder da banda Killing Surfers, cujo repertório é todo em inglês); a banda revelação de 2017 Jude, que recém-lançou o single “Pluma”; a rapper que também trouxe ares novos à música alagoana em 2017, Arielly Oliveira; o músico e poeta ativista, líder da banda A Trincheira, Rogério Dyaz, com repertório que se debruça sobre as mazelas sociais do nosso povo caeté, e finalmente Edi Ribeiro, com essa mistura sacudida de jazz e forró que só ele faz.

Rogério Dyaz participou em edição do ano passado, acompanhado pela Tricheira, banda da qual faz parte

“Como é um show de curta duração, apresentarei quatro músicas: duas minhas e duas de mestres alagoanos”, diz Edi Ribeiro, avisando que um desses mestres é Tororó do Rojão (Matriz de Camaragibe, 1936 – Maceió, 2011). “O outro eu estou vendo ainda. Na hora, a gente faz um caldeirão e sai alguma história.”

O compositor Edi Ribeiro é um dos mentores do movimento

A julgar pela empatia essa fera provoca no público, com destreza também de mestre, aguarde 20 minutos eletrizantes de música alagoana moderna comprometida com as raízes, mas, também, com a pesquisa de novos timbres e com um jeito único de tocar a guitarra. Ribeiro consagrou um estilo exuberante e muito próprio que pode ser conferido no álbum “Eu no Baião de Dois” (independente, 2017). “Vejo a continuação do ‘Antropofágico Miscigenado’ como importante soma no fortalecimento da nossa música e da nossa arte alagoana”, pontua.

Por sua vez, Arielly Oliveira, que abriu este mês o show de João Bosco no Teatro Gustavo Leite, ela que fez uma das apresentações mais concorridas do “Antropofágico” (e num dia de chuva!), arrebanhando uma galera do rap e do hip hop, manda sua letra: “Estou feliz em participar novamente do Antropofágico Miscigenado”.

E todos estamos felizes. A poesia este ano entra com mais força no movimento, nesta primeira edição representada por mim – que lancei em outubro, durante a Bienal Internacional do Livro, meu primeiro livro, “Álbum de Família” (editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos) – e pela linda poeta Ana Karina Luna (“Saindo da Piscina de Éter”, edição independente, também lançado na bienal). Faremos um pequeno sarau, declamando nossos poemas que, sim, repercutiram e estão ressonando por aí.

Ana Karina Luna, pela primeira vez atuando antropofagicamente no saguão do Teatro Deodoro, diz que as mulheres são “as maiores leitoras” de sua poesia romântica e sensual. “Ocorreram algumas experiências fortes, conteúdos que vieram à tona depois que elas leram o livro. Algumas vêm e continuam comprando para dar às amigas”, conta a autora, que esteve no “Sarau Domingueiro” do músico Daniel Rofer, em novembro de 2017, na capital paulista.

De acordo com a poeta, “Saindo da Piscina de Éter”, com encadernação manufaturada, “já foi bater na Inglaterra”. “Há pessoas na França e Suíça que já sabem dele. E outra pessoa aguarda nos EUA sua cópia. As pessoas se impressionam com a apresentação, o formato cartonero, todo feito à mão, evidentemente, pois é incomum. Mas, para mim, o que é forte mesmo – ou espero que seja – é o conteúdo, embora, talvez, seja ainda desconcertante para a maioria das pessoas.”

'Acho que o assunto feminino e revelador encomoda', supõe Karina

Desconcertante? “Acho que o assunto extremamente feminino, controverso e revelador incomoda”, supõe Ana Karina, teorizando: “As contradições incômodas de poder e submissão talvez assustem. Mas tal é o universo feminino e disso não se fala. O próprio incômodo é tabu. Ou talvez haja um desejo de o incômodo ser relatado de outra maneira, menos crua, ou menos direta – a própria perdição em que a mulher se encontra é disfarçada.”

Da minha parte, o livro de poesia e fragmentos “Álbum de Família” – que é o terceiro volume de uma trilogia, “A Melancia”, que iniciei ainda quando morava ainda em São Paulo, reflete momentos intensos envolvendo a família e uma ancestralidade que busco na própria história de Porto Calvo, minha cidade natal. É como uma metáfora bíblica, tipo a volta do filho pródigo. Mas é, também, uma saga rodrigueana – o título Álbum de Família remete à peça de Nelson Rodrigues. É pura catarse.

Bem, compareçam a este nosso retorno antropofágico. Este ano a ideia é se espalhar pela cidade, pelas escolas, levando a música e a poesia alagoanas ao teatro e à praça – e aos corações dos homens de boa vontade.

MOVIMENTO ANTROPOFÁGICO MISCIGENADO – Terça-feira (30), das 17h30 às 21h30; entrada franca, mas tem caixinha, obrigado. Contato: (82) 99197 5995 / (82) 98705 3256.

TEATRO DEODORO – Rua Barão de Maceió, 375, Centro. Tel. (82) 3315 5665.