12/01/2018 12:50:43
Maceió
Em Maceió, itan africano é representado na Lavagem do Senhor do Bonfim
Crédito: Fotos/ Divulgação/ Alexandre CarvalhoA Casa de Iemanjá é a idelizadora da festa desde os anos 2000
Paulo César Moreira

No domingo (14), acontece em Maceió, a Lavagem do Senhor do Bonfim. Também conhecido como “Ritual das Águas de Oxalá”, a festa religiosa que chega à 18a edição começa no bairro do Jacintinho, com uma concentração na rua São João, a partir das 15h. Depois segue em cortejo com destino ao pátio da Igreja do Senhor do Bomfim, no bairro do Poço. A programação conta com depoimento dos representantes religiosos, revoada de pombos, aclamação à paz, queima de fogos em homenagem a Oxalá e ao Senhor do Bonfim e, finalmente, a lavagem em si do pátio da igreja, feita pelas “baianas”, com água, flores e perfumes.

A reportagem do Alagoas Boreal conversou com o babalorixá e historiador Pai Célio de Iemanjá, que é o coordenador da Rede Alagoana de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, que promove o ritual em conjunto com a Casa de Iemanjá. Pai Célio explica que a ‘Lavagem do Senhor do Bomfim’ retrata um itan, em outras palavras, “uma lenda, uma história africana”.

Religioso explica que a ritualistica é uma aclamação 'à paz, à felicidade, à properidade'; 'pedimos equilibrio para os governantes'

“Oxalá vai visitar seu filho Xangô em sua cidade e ali ele é confundido com um ladrão e vai preso”, o religioso narra a saga dos orixás. “A cidade passa a sofrer com isso. Depois de sete anos, Xangô descobre que seu pai está preso. Então, manda parar toda a cidade, troca-lhe as vestes, lava-o com água, flores e perfumes e o recebe em seu palácio. Isso nós fazemos, representando esse itan.”

Sobre o significado da água na lavagem sagrada do Bomfim, e sobre o próprio nome do ritual, Pai Célio explica que “a água é a primeira forma de vida”. “Lavamos com água e isso significa transformação, vida, poder. A água é um dos quatro elementos, um dos mais importantes. Então, nessa ação de axé, fazemos, diante da sociedade alagoana, uma aclamação à paz, à felicidade, à prosperidade, pedindo aos nossos governantes equilíbrio em suas ações, para que haja um tratamento igualitário para todos. Após a lavagem, fazemos um cortejo dizendo não à intolerância, pedindo respeito em todos os sentidos e, também, a união entre os povos de matriz africana.”

'Precisamos mostrar a cara, não vamos pensar em matriz africana apenas no mês de novembro', afirma pai Célio

O religioso antecipa o calendário da Rede Alagoana de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana para 2018, afirmando que esses cidadãos “precisam mostrar a cara”. “Não vamos somente reclamar, vamos aparecer, buscando o respeito da sociedade para com as religiões de matriz africana. No dia 2 de janeiro fizemos a ‘Festa das Flores’, aludindo a Ganga Zumba. Faremos agora a ‘Lavagem do Bonfim’. 21 de março é o Dia Internacional de Combate ao Racismo. Faremos uma ação também nesse dia. 23 de abril, dia de São Jorge, já estamos nos organizando para participar da procissão. Na Umbanda São Jorge é Ogum – que é essa questão do sincretismo. Tem ainda o 13 de maio e tantas outras datas. Não vamos pensar em matriz africana apenas no mês de novembro. Vamos evidenciar, dessa forma, as várias datas que há no calendário que estamos montando.”