07/10/2017 17:01:38
Cultura
Livro sobre artesão Fernando Rodrigues encerra lançamentos da Eduneal na 8ª. Bienal
Crédito: Divulgação'Não tem como falar em arte na Ilha do Ferro sem falar de 'Seu Fernando'', exalta Jairo Campos
Paulo César Moreira

Em Maceió, o livro “Um Jeito de olhar: Fernando Rodrigues dos Santos”, será lançado às 18h desse domingo (8), quando se encerrará a oitava edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, que acontece no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, à rua Celso Piatti, s/n, no bairro central do Jaraguá.

Publicada pela Editora da Universidade Estadual de Alagoas (a Eduneal), a obra reúne narrativas e aforismos do escultor em madeira Fernando Rodrigues (1928-2009), nascido no povoado ribeirinho Ilha do Ferro, a 20 km do centro de Pão de Açúcar, o município sertanejo distante 235 km da capital. Os escritos de Fernando Rodrigues foram compilados pelo reitor da universidade, o professor Jairo José Campos da Costa, doutor em Letras pela Universidade de Maringá (UEM).

Fernando Rodrigues em seu atelie 'Boca do Vento'

Fruto de 15 anos de pesquisa feita por Campos no famoso povoado às margens do rio São Francisco, o livro apresenta um conjunto de textos em fac-símile (ou seja, reproduzidos como imagens do manuscrito original). Segundo Campos, contém “narrativas poéticas e descrições do processo criativo” desse poderoso artista. Pioneiro da produção de móveis e esculturas em madeira no município pãodeaçucarense (ele começou fabricando tamancos), Fernando Rodrigues é referência nacional de design e arte popular, tendo participado da exposição “Brésil, Arts populares, em Paris em 1987, e na Casa Cor de São Paulo em 2001.

O professor Campos explica que, apesar de não ter “formação colegial”, “Fernando Rodrigues tinha flashes poéticos de escritor e de narrador”. “Ele fazia ora versos, ora pequenas narrativas. A singularidade dos seus cadernos é que foram escritos por várias mãos. Seu Fernando, como as pessoas o chamavam no povoado, tinha as impressões, as imagens, e os moradores do povoado, passando em frente ao ‘Boca do Vento’, seu ateliê na Ilha do Ferro, ele chamava e então essas pessoas escreviam o que ele ditava. O caderno foi guardado, e Seu Fernando passou a esculpir nos encostos das cadeiras este imaginário. O caderno tornou-se uma espécie de sacrário.”

Livro será lançado nesse domingo (8), às 18h, no estande da Eduneal

 

Em janeiro de 2016, uma ação do Núcleo de Pesquisa em Literatura e Artes Visuais (Nuplav), coordenado por Jairo Campos, possibilitou a criação na Ilha do Ferro do Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, órgão suplementar da Uneal. O local, sob curadoria da museóloga Carmen Lúcia Dantas, reúne diversas esculturas em madeira, cinco delas criações de Fernando Rodrigues. Também estão espalhados pelo espaço, bancos, cadeiras, bonecas de pano e bordados produzidos pelos artesãos desse celeiro de artistas que é a Ilha do Ferro.


A filha de Fernando Rodrigues, Rejânia Sousa, bordadeira integrante da cooperativa Arte Ilha, virá acompanhada do marido, herdeiro das artes de Seu Fernando, o escultor e artesão Valmir Lima. “O filho mais novo, Gilmar, também foi convidado”, diz Jairo Campos, avisando que “um passarinho” do homenageado será exibido no estande da Eduneal.

“O livro é mais uma devolução minha, enquanto pesquisador através da Uneal, a 15 anos de pesquisa que faço no povoado. Meu doutorado é sobre poesia oral da Ilha do Ferro. Não é sobre Seu Fernando, mas não tem como falar de arte na região e não falar dele. E o museu também é uma devolução minha e do meu núcleo de pesquisa em memória de Fernando Rodrigues e sua obra”, destaca o reitor da Uneal.