27/09/2016 11:24:04
Patrimônios
Perspectiva de resistência negra em Alagoas é tema de livro
Crédito: Fotos/ FacebookPesquisador deu voz a personagens marginalizados pelo poder
Felipe Miranda

Maceió lidera os índices de pobreza e violência envolvendo a população afrodescendente há tempos. Esses dados negativos não são novidade para ninguém. Abordando essas e outras questões que envolvem a presença negra na história da capital alagoana, o mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Danilo Luiz Marques, lança nessa quarta-feira (28), o livro "Sobreviver e resistir: Os Caminhos para Liberdade de escravizadas e africanas livres em Maceió (1849-1888)". O evento acontece a partir das 18h, na reitoria da Universidade Federal de Alagoas (a Ufal). O lançamento integra, ainda, a programação oficial do 8o Encontro Nacional de História da Ufal, que acontece entre os dias 28 e 30 de setembro no Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes.

Desmistificar o folclore que ocupa a maioria dos relatos sobre o período de escravidão em Alagoas foi uma das preocupações de Marques. Segundo o estudioso, a ideia era privilegiar a perspectiva de resistência que o povo negro entoa há séculos no Brasil, especialmente em Maceió. “Tudo começou com uma inquietação. São poucos e lacônicos os estudos sobre escravidão na região alagoana, e a maioria deles é dotada de uma visão factual ou pacífica sobre a relação de senhores e escravizados.”

O livro, de acordo com o historiador, torna-se alternativa que dá voz a personagens históricos e marginalizados pelo poder. “Não é uma história de marechais, coronéis, barões e outros oligarcas, é uma história de um povo que viveu nas fimbrias da escravidão e tem trajetórias de vidas singulares”, defende Danilo Marques.

Onde houve escravidão, houve resistência. É o que o livro pretende mostrar. As revoltas e os quilombos, apesar de serem os exemplos mais emblemáticos dessa luta, não foram as únicas formas de se opor à instituição escravista. A História aponta que os escravos encontravam nas tarefas diárias oportunidades para se rebelar. “Pequenas faltas, desvios de produção agrícola do senhor, trabalho mal feito ou inacabado e greves”, aponta o pesquisador da PUC-SP. Desde 1980, a historiografia amplia o conceito de resistência escrava e revela novos dados sobre as possibilidades de oposição.

“Passou-se a focar em trajetórias de escravizados marcadas por tentativas de arbitração de suas vidas, que revelam astúcias e solidariedades para escapar do controle senhorial. Essas redes de sociabilidades, além de auxílio na busca por sobrevivência, foram também muito importantes na luta pela liberdade.”

Livro será lançado durante oitava edição do Encontro Nacional de História da Ufal

O número de escravos dispostos a lutar era tão grande que não tardou a procura por movimentos populares organizados. Tudo isso, junto com os protestos dos movimentos abolicionistas, contribuíram de forma relevante para o desmoronamento da escravidão. Em “Sobreviver e resistir”, todos esses detalhes destoam da Maceió que conhecemos pelos documentos históricos. “São informações que mostram uma Maceió repleta de urdiduras dos pormenores inerentes ao sobreviver na capital alagoana na segunda metade do século 19. Mostra como no dia a dia os escravos buscaram o sustento das famílias, sem perder de vista, o objetivo de se alforriar ou emancipar.”

Ainda sobre a História de Alagoas, Danilo Luiz Marques aponta a maior dificuldade encontrada durante o processo de pesquisa: o acesso às informações presentes em arquivos aqui do Estado. “A situação dessas instituições é precária e falta investimento do poder público. Recentemente, visitei as novas instalações do Arquivo Público de Alagoas. Melhorou bastante, mas, infelizmente, não posso falar o mesmo do Arquivo do Judiciário, que se encontrava fechado desde a época das pesquisas documentais para o livro.”

Para mais informações sobre o 8o Encontro Nacional de História da Ufal, acesse o portal do evento. Confirme presença no lançamento do livro clicando aqui.